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Morte no CT: advogada autoriza Fla a falar com família, que quer o culpado

Mauro Cezar Pereira

09/02/2020 04h00

Jorge Eduardo era capitão do time Sub-15 do Flamengo – Reprodução

O incêndio que matou dez adolescentes das divisões de base no Centro de Treinamento do Flamengo, o Ninho do Urubu, completou um ano ontem, sábado, 8 de fevereiro. Paula Wolff representa a família de Jorge Eduardo.

Nesta semana o blog traz posts com a palavra de envolvidos na disputa judicial e a advogada concedeu a entrevista a seguir. Ela negou que dirigentes do clube a tenham procurado para falar com os pais do rapaz, deu o sinal verde para que o façam e deixou claro que a família deseja a responsabilização dos culpados. Inclusive criminalmente.

Quem você representa no caso Flamengo/Ninho do Urubu?

A família do Jorge Eduardo.

Por que algumas famílias fizeram o acordo e outras ainda não?

Não posso falar pelas famílias que fizeram acordo. A família que represento não achou a proposta do clube justa. O Jorge estava no clube desde 2016 e era capitão do time. Conquistou inúmeros títulos pelo Flamengo. Um excelente jogador, com futuro promissor, e era um filho carinhoso e muito amado por toda a família.

Acho um tanto absurdo falar em "jurisprudência", afinal, não se tem notícia de caso parecido (adolescentes mortos em incêndio dentro de CT). Mas na área jurídica funciona assim, casos anteriores nas quais pessoas perderam a vida em acidentes etc são utilizados como referência, certo?

Não temos nada, nem de perto, parecido em nossa jurisprudência, pois aqueles adolescentes estavam sob a guarda do Flamengo, dormindo dentro de um container gradeado, num local impróprio e sem alvará de funcionamento.

Diante desse cenário, o que o Flamengo oferece é igual, maior ou menor do que valores normalmente pagos pelas empresas e instituições onde ocorreram tragédias que geram perda de vidas?

O valor que o clube ofereceu foi vergonhoso diante de todo o contexto.

O que a família pede é quantas vezes mais do que aquilo que o clube oferece?

A família não pediu nada ainda. Pediremos no processo judicial, ocasião na qual o valor devido será apurado considerando todas as peculiaridades do caso concreto.

Wolff – Foto: Divulgação

O que o Flamengo fez e faz pelos familiares desde então, de ajuda financeira a apoio psicológico, deslocamento dos familiares até o Rio de Janeiro etc? Houve algo que reivindicaram e não atenderam?

O Flamengo arcou com as despesas da vinda dos pais do Jorge Eduardo ao Rio de Janeiro logo após a tragédia. Mensalmente depositavam R$ 5 mil, quantia esta que mudou para R$ 10 mil após a decisão judicial – contra qual, destaque-se, recorreram para reduzir.

Além do dinheiro da indenização, o que mais está sendo reivindicado pela família?

A família reivindica a responsabilização dos culpados, em todos em sentidos, inclusive criminal.

Como você e a família acompanham a investigação que pode apontar os responsáveis (pessoas) pelo incêndio?

Estamos aguardando a conclusão do inquérito – que vai completar um ano – e consequentemente a denúncia dos responsáveis pelo Ministério Público.

Qual a importância de se chegar aos responsáveis? E de serem punidos?

Total importância. O Brasil não pode ser mais o país da impunidade.

Em sua opinião, por que se fala tanto no dinheiro (obviamente fundamental) das indenizações e não se comenta tanto sobre a investigação, por que não se clama por justiça?

Sinceramente não vejo dessa forma. O clamor por justiça é nítido em todas as famílias que aguardam a conclusão do inquérito para a responsabilização criminal dos culpados. O foco na questão financeira parte mais do Flamengo, que desde o começo trata a questão como um número. A preocupação deles nunca fui dirigida às famílias.

Não teme que o caso se arraste na justiça por anos e ao final seja determinando por ela o pagamento de um valor até menor do que o oferecido pelo clube?

Se não acreditarmos mais que há Justiça no Brasil é melhor irmos todos embora para outro País. A solução é o Galeão (aeroporto)! Sem justiça não há democracia. E eu ainda acredito na justiça.

Qual o percentual que a família pagará por seus honorários ao final do processo?

Não entendo o contexto dessa pergunta. Por acaso o Flamengo divulga quanto paga a seus advogados? E quanto será que pagou a estes para fazerem, em dezembro de 2019, um acordo de 13 milhões de reais com Dorival Junior? O clube sempre fez questão de demonizar a figura dos advogados das famílias como se fossemos os culpados em não ter havido acordo, e isso não é verdade. O acordo não foi feito porque o Flamengo não aceitou valores razoáveis, inclusive que foram propostos pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro e pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, e não pelos advogados. O mais triste é que parte da sociedade "compra" esse discurso vindo do clube e realmente acredita que nós somos os "entraves" à conclusão de acordos. Agora eu te pergunto: se você perdesse um filho nessas condições, não buscaria seus direitos? Melhor, retiro a pergunta. É sofrimento demais só ter que pensar em perder um filho.

É apenas uma pergunta feita a todos os advogados que entrevistamos para essa série no blog. Pode entendê-la até como uma oportunidade de rebater eventuais insinuações no sentido de que "advogados das famílias só pensam no dinheiro" etc. O que achou dessas explicações dadas pelos dirigentes no vídeo levado ao ar sábado pelas redes sociais e canal do Flamengo no YouTube?

Não entendemos o vídeo dos dirigentes do clube como sendo explicações. Eles deveriam ter se colocado à disposição  para responder perguntas de jornalistas e das famílias. Aí sim, poderíamos pensar em utilizar essa palavra. O que fizeram foi um teatro.

No pronunciamento de sábado os dirigentes do Flamengo disseram que não podem procurar os familiares sem, antes, falar com os advogados. Eles a procuraram alguma vez pedindo autorização para conversar com os familiares, conforta-los?

Eles não precisam de autorização para ligar para a família do Jorge. Eles têm os telefones dos pais, não ligaram porque não quiseram. De qualquer forma, por mais desnecessário que seja, fica expressamente autorizado o contato.

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Próximo entrevistado da série: Cíntia Guedes, coordenadora cível da Defensoria Pública do
Estado do Rio de Janeiro.

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Sobre o autor

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN e da Rádio Bandeirantes de São Paulo.

Sobre o blog

Trazer comentários sobre futebol e informações, eventualmente em primeira mão, são os objetivos do blog. O jornalista pode "estar" comentarista, mas jamais deixará de ser repórter.

Mauro Cezar Pereira