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Morte no CT: Advogado de herói reclama da frieza do Flamengo

Mauro Cezar Pereira

06/02/2020 04h00

O goleiro Christian Esmério, morto no incêndio, e Jean Salles (no destaque), que salvou três colegas e sobreviveu

Em 8 de fevereiro, o incêndio no Centro de Treinamentos Ninho do Urubu que matou dez adolescentes das divisões de base do futebol do Flamengo completará um ano. O advogado Arley Campos representa as famílias do goleiro Christian Esmério e do sobrevivente Jean Salles, que salvou três pessoas e se tornou um herói em meio à tragédia.

O advogado concedeu a entrevista a seguir ao blog, que nesta semana traz posts com a palavra de personagens que participam do imbróglio na justiça.

Quem você representa no caso Flamengo/Ninho do Urubu?

Christian Esmério e Jean Salles.

Por que algumas famílias fizeram o acordo e outras ainda não?

Principalmente por estarem exaustas da pressão psicológica e mais ainda pela necessidade. As famílias sobreviviam com a ajuda financeira que os jogadores passavam a elas.

Acho um tanto absurdo falar em "jurisprudência", afinal, não se tem notícia de caso parecidos (adolescentes mortos em incêndio dentro de CT de clube). Mas na área jurídica funciona assim, casos anteriores nos quais pessoas perderam a vida em acidentes etc são utilizados como referência, certo?

No referido caso seriam usados alguns parâmetros, pois como disse, não há jurisprudência, mas o que tem que se levar em conta é o fato de que as mortes dos jogadores se deu pela negligência do clube, pois os mesmos estavam sob a guarda dele.

Diante desse cenário, o que o Flamengo oferece é igual, maior ou menor do que valores normalmente pagos pelas empresas e instituições onde ocorreram tragédias que geraram perda de vidas?

Os valores hoje oferecidos pelo clube são ao meu ver, ridículos, pois na verdade os valores apresentados até hoje foram: primeiro R$ 300 mil por família, e seria dividido entre os genitores; depois ofereceram R$ 700 mil com um salário mínimo mensal por dez anos. Entretanto, os acordos feitos foram acima das propostas passadas e abaixo do que havia sido sugerido pelo MP (Ministério Público).

Como se chegou ao montante que a família pede?

Fizemos uma projeção em cima de um valor que se aproxima ao salário do goleiro Thiago, que o Flamengo emprestou ao América; e o cálculo aproximado desse valor pelo período de anos de carreira que ele teria. Exemplo: o valor multiplicado pelos anos de carreira, que colocamos até os 35 anos. E cabe lembrar que o Christian era goleiro das seleções Sub 15 e Sub 17

O que o Flamengo fez e faz pelos familiares desde então, de ajuda financeira a apoio psicológico, deslocamento dos familiares até o Rio de Janeiro etc? Houve algo que reivindicaram e não atenderam?

Olha, o que se fala é uma grande balela, pois o clube arcou com as despesas de traslado e estadia apenas no momento do fato ocorrido, apoio psicológico só nos dias, fora isso não há nada, apenas uma frieza por parte do clube com as famílias. Passaram dias das mães, dos pais, final de ano e nenhum tipo apoio foi dado. Acompanhamento zero por parte do clube.

Além do dinheiro da indenização, o que mais está sendo reivindicado?

O que está se discutindo e apenas os valores indenizáveis e o pensionamento.

Como você e a família acompanham a investigação que pode apontar os responsáveis (pessoas) pelo incêndio?

Antes acreditavam mais, agora após quase um ano já soa estranho, pois é muito tempo para uma conclusão de um inquérito.

Qual a importância de se chegar aos responsáveis? E de serem punidos?

Principalmente para passarmos a ter responsabilidades, visto que tratam-se de seres humanos, e os clubes que nos casos vão atrás desses jovens têm que ter mais compromissos para com eles, pois os meninos largam as suas famílias, em busca de uma profissão, onde os clubes faturam muita grana e o mínimo que eles têm a oferecer é o cuidado desses jovens, terem uma vida digna com segurança e não como é feito hoje pelo país.

Em sua opinião, por que se fala tanto no dinheiro (obviamente fundamental) das indenizações e não se comenta tanto sobre a investigação, por que não se clama por justiça?

Da parte das famílias fala-se muito sobre isso, e da nossa parte (advogados) principalmente, já que o inquérito é uma peça importante para instrução do processo, e como dito já passou a soar estranho tanta demora na conclusão do mesmo.

Arley Campos – Foto: Divulgação

Não teme que o caso se arraste na justiça por anos e ao final seja determinando por ela o pagamento de um valor até menor do que o oferecido pelo clube?

A questão não é somente essa, até por que a forma como o clube trata o assunto é uma coisa horrível, principalmente pela frieza e falta de carinho para com a família, e acreditamos que ainda temos uma justiça compromissada no Brasil.

Qual o percentual que a família pagará por seus honorários ao final do processo?

Prefiro não responder para não criar polêmica ainda maior.

O que achou dessas explicações dadas pelos dirigentes no vídeo levado ao ar sábado pelas redes sociais e canal do Flamengo no YouTube?

Desculpa a franqueza, mas são patéticos. Querendo justificar uma negligência e querendo colocar a culpa pelo não acordo por conta dos advogados. Isso é ridículo, e eu não esperava outra atitude desses dirigentes. A família do falecido, a qual represento o pai, no momento da tragédia e no dia que, não sei porque, a defensoria havia convocado os familiares até o prédio da DP. O mesmo estava acompanhado por mim e por meu sócio, e como não houve nenhuma reunião no dia, disseram que o Flamengo tinha pedido para que todos fossem para o hotel. Chegando lá o dirigente do Flamengo que lá se encontrava sequer foi cumprimenta-lo, cumprimentar no intuito de afago mesmo, e tenho absoluta certeza que só veio falar comigo por eu estar vestido de terno.
Após isso, há mais ou menos cinco meses, fizeram um contato conosco, onde passamos uma proposta e sequer tiveram a hombridade de nos responder. Falar que prestam auxílio aos familiares, balela. Contato e apoio zero. Fiz um acordo de um sobrevivente, se eu te mostro o teor do acordo você ficará enojado. Triste ver dirigentes iguais aos que lá estão fazendo algo do tipo e sujando o nome da instituição. Agora, um esclarecimento feito pela Fla TV. Qual a credibilidade que o mesmo passa, senão o de tentar querer passar para a mídia respostas prontas, isso é fato! Não teve nenhuma homenagem, construíram um estacionamento. Nem com uma sala de ginástica foram capaz de homenagear os meninos.

No pronunciamento de sábado os dirigentes do Flamengo disseram que não podem procurar os familiares sem, antes, falar com os advogados. Dirigentes do clube o procuraram alguma vez pedindo autorização para conversar com os familiares, conforta-los?

Houve um episódio no qual foi feita uma moção na assembleia legislativa aqui do Rio de Janeiro e o Rodrigo Dunshee (vice-presidente geral e jurídico) tinha ido representando o Flamengo e eu havia sido convidado para representar todas as famílias. Era uma solenidade voltada às famílias e os garotos do Ninho, e o senhor Rodrigo, com uma frieza tão grande, sequer me cumprimentou como representante das famílias e naquela oportunidade tive a chance de poder falar para ele algumas verdades. Eles nunca se reportaram a nada para os familiares e aí ficam jogando para a torcida dizendo que estão dando apoio psicológico, disso ou daquilo. É mentira. Estão se atendo a depositar os valores de R$ 5 mil e agora os R$ 10 mil determinados pela justiça.

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Sobre o autor

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN e da Rádio Bandeirantes de São Paulo.

Sobre o blog

Trazer comentários sobre futebol e informações, eventualmente em primeira mão, são os objetivos do blog. O jornalista pode "estar" comentarista, mas jamais deixará de ser repórter.

Mauro Cezar Pereira