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Morte no CT: Advogada critica Fla, sem acordo mesmo faturando quase R$1 bi

Mauro Cezar Pereira

08/02/2020 04h00

Pablo Henrique tinha 14 anos e era zagueiro na base do Flamengo- Reprodução

O trágico incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo, o Ninho do Urubu, matou dez adolescentes das divisões de base. A tragédia completa um ano hoje, sábado, 8 de fevereiro.

Mariju Maciel é advogada e representa a família do volante Pablo Henrique. Ela concedeu a entrevista a seguir ao blog, que nesta semana traz posts com a palavra de personagens envolvidos nessa disputa na justiça.

Quem você representa no caso Flamengo/Ninho do Urubu?

A família de Pablo Henrique.

Por que algumas famílias fizeram o acordo e outras ainda não?

Conversando com alguns colegas, me foi dito que algumas famílias não aguentavam mais discutir esse assunto, que estavam no auge de uma depressão e que mesmo entendendo como injusto o valor, precisavam "virar a página". Talvez isso justifique.

Acho um tanto absurdo falar em "jurisprudência", afinal, não se tem notícia de caso parecido (adolescentes mortos em incêndio dentro de CT). Mas na área jurídica funciona assim, casos anteriores nos quais pessoas perderam a vida em acidentes etc são utilizados como referência, certo?

Não acredito que há precedente na Justiça, não conheço nenhum caso onde a parte culpada foi avisada 31 vezes sobre as suas irregularidades e manteve adolescentes correndo risco. Não conheço nenhum caso na jurisprudência brasileira onde o réu teve como renda em um ano quase R$ 1 bilhão, não conheço precedente na justiça brasileira onde a empresa tenha funcionários com salários acima de R$ 1 milhão, não conheço nenhum caso na justiça brasileira onde adolescentes foram colocados a dormir dentro de containers de alta combustão.

Diante desse cenário, o que o Flamengo oferece é igual, maior ou menor do que valores normalmente pagos pelas empresas e instituições onde ocorreram tragédias que geram perda de vidas?

Comparativamente é insignificante.

A advogada Mariju Maciel – Foto: Divulgação

O que a família pede é quantas vezes mais do que aquilo que o clube oferece?

A família pede o que entende justo e o valor é ínfimo para uma empresa como o Flamengo.

O que o Flamengo fez e faz pelos familiares desde então, de ajuda financeira a apoio psicológico, deslocamento dos familiares até o Rio de Janeiro etc? Houve algo que reivindicaram e não atenderam?

A família que represento jamais teve contato com ninguém do Flamengo, nem para receber o caixão do seu filho. Com o valor que recebem mensalmente estão pagando os remédios para depressão, remédios para dormir, médicos, psiquiatras. Tudo é muito triste.

Além do dinheiro da indenização, o que mais está sendo reivindicado pela família?

Carinho, atenção.

Como você e a família acompanham a investigação que pode apontar os responsáveis (pessoas) pelo incêndio?

Com apreensão. Um ano já passou e sequer o inquérito acabou.

Qual a importância de se chegar aos responsáveis? E de serem punidos?

Total.

Em sua opinião, por que se fala tanto no dinheiro (obviamente fundamental) das indenizações e não se comenta tanto sobre a investigação. Por que não se clama por justiça?

Desculpe, mas o que mais clamamos é por justiça.

Me refiro à sociedade, às manifestações de pessoas em geral, que se referem muito mais ao dinheiro das indenizações do que em identificação e responsabilização dos eventuais culpados. Não teme que o caso se arraste na justiça por anos e ao final seja determinado por ela o pagamento de um valor até menor do que o oferecido pelo clube?

Não acreditamos nisso.

Qual o percentual que a família pagará por seus honorários ao final do processo?

Talvez essa pergunta tenha como objetivo a triste ideia de que nós advogados somos quem quer receber valores com uma tragédia, o que é lamentável e triste. Minha relação com meu cliente é privada e não está em discussão. O que se tenta é desviar o foco, o que é mais uma vez lastimável.

É apenas uma pergunta feita a todos os advogados que entrevistamos para essa série no blog. Pode entendê-la até como uma oportunidade de rebater insinuações nesse sentido.

Não entendo qual o interesse em uma relação privada! Não preciso rebater insinuações. Estou ao lado da família que represento com árduo trabalho há um ano e a minha relação com ela, é com ela. Qual é o salário do advogado do Flamengo?

O que achou das explicações dadas pelos dirigentes no vídeo levado ao ar sábado pelas redes sociais e canal do Flamengo no YouTube?

Achei lastimável que os dirigentes do Flamengo não tenham tido a coragem de enfrentar jornalistas ao vivo fazendo perguntas não selecionadas.

No pronunciamento de sábado os dirigentes do Flamengo disseram que não podem procurar os familiares sem, antes, falar com os advogados. Dirigentes do clube a procuraram alguma vez pedindo autorização para conversar com os familiares, conforta-los?

Jamais impedi qualquer contato com a família! A contradição do Flamengo é enorme, pois enquanto ele pede que as famílias negociem diretamente com eles sem a presença de advogados, ao lado do Presidente está o seu advogado e a todo tempo ele fala em decisão do "corpo jurídico", ou seja, as famílias não devem ter advogados mas eles sim?

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Próximo entrevistado da série: Paula Wolf, advogada que representa a família de Jorge Eduardo.

 

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Sobre o autor

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN e da Rádio Bandeirantes de São Paulo.

Sobre o blog

Trazer comentários sobre futebol e informações, eventualmente em primeira mão, são os objetivos do blog. O jornalista pode "estar" comentarista, mas jamais deixará de ser repórter.

Mauro Cezar Pereira