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Depois do "perder é normal", pagar salário atrasado também é?

Mauro Cezar Pereira

19/12/2019 14h17

Abel recebe camisa personalizada do Vasco das mãos de Campello – Foto: Divulgação/ Rafael Ribeiro/CRVG

Na entrevista coletiva de (re)apresentação como técnico do Vasco, para onde voltou após 19 anos, Abel Braga revelou trecho de sua conversa com Alexandre Campello. Nela, contou, o presidente do clube fez uma espécie de alerta sobre a forma como irá remunerar o novo treinador vascaíno. "Ele me disse: 'vou te pagar, mas não pensa que irei pagar em dia"'.

O tom elogioso ao dirigente por ter sido, digamos, sincero, é estarrecedor. Abel tem o direito de trabalhar até de graça pelo Vasco, mas não há nada de positivo nesse tipo de postura. Se o clube não consegue pagar em dia o profissional, por que o contrata? Alguém dirá que isso é problema dos dois. Não é. Quando o comandante aceita tal situação, fica pior para os que também receberem com atraso e não estão dispostos a tolerar isso.

Como reclamar se o chefe acha que, por ter antecipado que não pagará em dia, o presidente do clube merece ser elogiado, mesmo sem cumprir o básico do acordo patrão-empregado? E a situação dos funcionários e atletas que ganham pouco, caso dos jogadores em início de carreira? Se quem escala o time, comanda, acha que tudo bem, obviamente ficará desconfortável para quem é menor nessa escala, esteja insatisfeito, ou não.

Em julho, Thiago Neves minimizou a falta de pontualidade do Cruzeiro na remuneração de seus profissionais. "Os salários estão atrasados, mas qual clube não atrasa?". Mais um caso no qual o profissional fala por ele, talvez por ter alcançado posição financeira confortável, que lhe permite receber o dinheiro muito depois sem sofrer as consequências do não cumprimento do compromisso pelo empregador. Evidentemente nem todo o jogador de futebol pode se dar a esse luxo, para muitos, o problema é enorme.

Esse tipo de reação mostra que o futebol brasileiro segue amarrado às velhas práticas, com raros clubes admitindo suas crises econômicas, cortando custos e se adequando à realidade do momento. Muitos querem certos atletas e treinadores, mesmo custando aquilo que não podem pagar. Pior ainda quando alguns se submetem a isso como se fosse algo aceitável. Desse jeito, como imaginar tais agremiações saindo do buraco financeiro?

No começo do Campeonato Brasileiro deste ano, Abel ainda dirigia o Flamengo e chocou a torcida ao dizer que perder para o Internacional no Beira-Rio e para o Atlético no Horto é "normal". Detalhe, o time mineiro atuou com menos um jogador por metade da partida. Pelo menos desta vez não o ouvimos dizer que pagar salários com atraso é normal, embora seja em muitos clubes brasileiros. É, se dissesse, faria até mais sentido.

 

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Sobre o autor

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN e da Rádio Bandeirantes de São Paulo.

Sobre o blog

Trazer comentários sobre futebol e informações, eventualmente em primeira mão, são os objetivos do blog. O jornalista pode "estar" comentarista, mas jamais deixará de ser repórter.

Mauro Cezar Pereira