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Parreira erra em discurso bem-intencionado, corporativista e desinformado

Mauro Cezar Pereira

04/09/2019 18h16

Parreira e Scolari em treino da seleção brasileira na Copa de 2014 – Foto: Moacyr Lopes Junior/Folhapress

Carlos Alberto Parreira era o coordenador técnico da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2014. Depois do massacre alemão, o famoso 7 a 1, foi ele quem leu a inesquecível carta de Dona Lúcia. O treinador campeão mundial em 1994 anda meio sumido, mas de vez em quando reaparece.

E lá estava Parreira na "Brasil Futebol Expo", evento da CBF em São Paulo. Sobre o, finalmente, discutido nível técnico dos treinadores brasileiros, não surpreendeu: "Nós não estamos tão atrasados quanto possa parecer. É que as dificuldades são grandes", minimizou, em tom um tanto corporativista.

Parreira é articulado e fala com desenvoltura. Não nega entrevistas nessas aparições e discorre longamente sobre os temas. A questão é o conteúdo. E quando tenta se aprofundar, às vezes desliza. Apos elogiar os estrangeiros que dirigem times no Brasil, ele buscou exemplos:

"As principais equipes do futebol inglês não têm nenhum técnico inglês dirigindo, são só estrangeiros", disse, buscando um exemplo de liga importante que bem recebe treinadores de outras nacionalidades. Dissesse isso na temporada passada teria acertado, mas hoje, não.

Atualmente Frank Lampard treina o Chelsea. E não resta dúvida de que trata-se de um dos maiores da Inglaterra, onde nasceu. O clube ganhou duas das cinco últimas edições da Premier League, a Copa da Inglaterra em 2018, a Liga Europa em 2013 e 2019, além da Champions League 2012.

Esse tipo de declaração dada por um torcedor seria tolerável, mas não pega bem um palestrante demonstrar desatualização sobre o tema que se propõe a abordar. Mas, vamos relevar, afinal, desde julho Frank Lampard comanda o Chelsea e é possível que não tenha notado após cinco partidas.

No entanto, o campeão do mundo há 25 anos é desenvolto nas entrevistas, e mandou outra, ainda na (nobre) tentativa de elogiar a chegada de treinadores de outras nacionalidades por aqui: "A própria seleção inglesa nas últimas quatro Copas foi dirigida por técnicos estrangeiros".

Não, não foi isso. Aliás, há sete anos e sete meses a seleção inglesa não é comandada por estrangeiros. Antes, de fato, o sueco Sven Göran Eriksson foi treinador dos ingleses no Mundial de 2006 e o italiano Fabio Capello o "manager" em 2010, cargo que deixou em fevereiro de 2012.

Interinamente Stuart Pearce o substituiu. Em seguida veio Roy Hodgson, que esteve à frente do selecionado "Three Lions" na Copa de 2014, e Gareth Southgate, que no Mundial de 2018 levou a Inglaterra às semifinais após 28 anos! Parreira não sabe disso? E os três são ingleses!

São muitos deslizes para quem é apresentado como autoridade em determinado assunto. O que Parreira diz fazia sentido no passado. Como as estratégias e métodos de vários técnicos (não todos) brasileiros ficaram para trás em relação ao que se vê de melhor no exterior.

Parreira demonstrou boas intenções, com elegância rebateu o discurso de alguns, que beira a xenofobia, mas escorregou nas informações que buscou para sustentar suas próprias teses. Com isso, revela desinformação, evidente e inequívoca desatualização. E há quem se habitue a isso.

Alguém até pode minimizar, mas é justamente devido à desatualização de treinadores sobre o que se passa no mundo do futebol que eles não conseguem abrir mercado no exterior e os de fora começaram a chegar aqui. Quando a CBF organiza eventos nos quais os mesmos falarão sobre a mesma coisa, o futebol praticado no país dificilmente sairá do lugar.

 

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Sobre o autor

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN e da Rádio Bandeirantes de São Paulo.

Sobre o blog

Trazer comentários sobre futebol e informações, eventualmente em primeira mão, são os objetivos do blog. O jornalista pode "estar" comentarista, mas jamais deixará de ser repórter.

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