Topo
Blog do Mauro Cezar

Blog do Mauro Cezar

Categorias

Histórico

Linha alta de Jesus ou a linha baixa de Mano, Felipão e tantos outros?

Mauro Cezar Pereira

19/07/2019 01h12

Uma discussão de viés tático ganha corpo nas conversas de botequim sobre futebol: o posicionamento defensivo das equipes. Isso mostra que abordar temas táticos sobre o jogo pode ser atraente para o torcedor não tão interessado no assunto, especialmente se a abordagem não estiver carregada por verbetes do dialeto tatiquês. E uma das razões para tal debate fora dos ambientes futebolístico-acadêmicos é a postura defensiva do Flamengo de Jorge Jesus, contraponto ao que costumam adotar consagrados e vencedores técnicos brasileiros.

O português recém-chegado ao Rio de Janeiro posiciona os homens de sua defesa quando sem a posse de bola na chamada "linha alta", ou seja, o time adianta os homens de defesa, meio-campo e ataque com o objetivo de pressionar o rival que está com a pelota. Os espaços, com isso, devem ser reduzidos, de maneira que o jogador adversário não encontre opções para fazer o passe. O intuito, evidentemente, é recuperá-la o quanto antes e mais perto da meta inimiga. A estratégia exige intensidade e condição física.

O risco? Com o time posicionado no território do oponente para tomar-lhe a pelota, os defensores estarão próximos à linha divisória do gramado. Com isso, os espaços atrás dos zagueiros tornam-se generosos, obrigando, por exemplo, que em determinados momentos o goleiro atue com os pés, fora da área, quando o adversário consegue sair dessa pressão e rapidamente chegar à outra metade da cancha. Foi assim que na quarta-feira o Athletico Paranaense chegou ao tento de empate diante do Flamengo, no Maracanã.

Em contrapartida, atuando dessa maneira o mesmo time fez meia dúzia de gols no domingo diante do Goiás, que até então sofrera oito no mesmo número de partidas pelo Campeonato Brasileiro. O jogo de futebol funciona dentro da lógica do cobertor curto, ajustar os momentos em que é preciso proteger a cabeça ou os pés é o grande desafio. No entanto, posicionar os jogadores dessa maneira, como Jesus fez imediatamente após desembarcar no Galeão, é mais difícil, mais desafiador, exige mais trabalho e conhecimento.

 

Por isso, mesmo com bons jogadores e poder ofensivo no elenco, tantos treinadores brasileiros fazem o caminho inverso. Mano Menezes, no Cruzeiro, Luiz Felipe Scolari, no Palmeiras, Fábio Carille, no Corinthians, e até Tite, na seleção brasileira, em diferentes níveis costumam entrincheirar suas linhas de defesa e meio-campo diante da própria área, protegendo a meta e atraindo o adversário perigosamente para perto dela. Assim os cruzeirenses construíram, na ida, os 3 a 0 sobre o Atlético e perderam, na volta, por 2 a 0.

Jogasse o Flamengo fechadinho após a abertura do placar, teria sustentado o 1 a 0? Impossível afirmar. O Athletico provavelmente não faria o gol da maneira que fez, mas poderia chegar ao 1 a 1 na pressão, cruzando na área, como no tento assinalado em Curitiba, em cabeçada de Léo Pereira. Cruzeiro, Palmeiras e Bahia, que na noite de quarta atuaram protegendo a "casinha" por bom tempo, juntos levaram quatro gols. Fica claro que a linha baixa não assegura nada, pois nenhuma estratégia oferece tal garantia.

A chegada Jorge Jesus, como no começo do ano a do seu xará argentino, Sampaoli, ao Santos, traz diversidade à maneira de atuar dos times brasileiros. E isso é ótimo. Mas, convenhamos, quando um treinador dispõe de jogadores cheios de recursos, talentosos, ofensivos e com poder de decisão, não faz muito sentido posicioná-los de maneira prioritariamente defensiva. Atletas que criam e fazem gols devem habitar o setor mais próximo da área adversária, não na vizinhança de seu próprio goleiro.

Vai ficar cada vez mais interessante.

 

follow us on Twitter

follow me on youtube

follow me on facebook

follow us on instagram

follow me on google plus

Sobre o autor

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

Contato: maurocezarblog@uol.com.br

Sobre o blog

Trazer comentários sobre futebol e informações, eventualmente em primeira mão, são os objetivos do blog. O jornalista pode "estar" comentarista, mas jamais deixará de ser repórter.

Mais Blog do Mauro Cezar